quarta-feira, 31 de julho de 2013

Deve o Egito retirar o Presidencialismo?

David Landau - Florida State University College of Law

Bruce Ackerman recentemente escreveu um artigo de opinião no New York Times, conclamando o Egito para retirar a instituição da presidência de sua nova ordem constitucional, e, instituir um sistema parlamentar com um voto de censura construtiva. Ackerman argumenta, essencialmente, que a figura do presidente permite que a Irmandade Muçulmana governe sem ganhar o apoio de outros grupos, enquanto um sistema parlamentar forçaria islamitas a governar com o apoio de outros grupos.O artigo revive um dos debates mais antigos no projeto constitucional. Juan Linz e outros têm sustentado que o presidencialismo cria um winner-take-all lógica que é prejudicial para a estabilidade democrática, e por isso recomendam o parlamentarismo em seu lugar. Alguns trabalhos mais recentes por Cindy Skach e outros, tem-se centrado sobretudo no semi-presidencialismo encontrado no Egito, França, Rússia e em outros lugares, onde há tanto um presidente eleito diretamente com o poder real e um primeiro-ministro independente. Estes regimes supostamente criam imprecisão na distribuição de poderes, algo que é especialmente desestabilizador para a democracia.Uma linha de investigação oposta, porém, vem defendendo o presidencialismo. Por exemplo, os estudiosos argumentam que o presidencialismo aumenta a responsabilização eleitoral, tanto porque os eleitores têm uma noção mais clara de quem estão votando e quanto por que é mais fácil para eles descobrirem a quem responsabilizar por falha governamental. Alguns também notam que os regimes parlamentares podem de fato serem altamente instáveis, com governos de coalizões, formando-se e dissolvendo-se em rápida sucessão (como ocorreu, por vezes, na Itália). E outros defendem a determinação de que regimes presidencialistas supostamente podem responder a esta crise.As reivindicações concorrentes continuam a ser difíceis de avaliar empiricamente; análises estatísticas são difíceis, por exemplo, devido ao grande número de variáveis . A experiência latino-americana - onde os principais países são presidencialistas - ainda assim parece muito diferente do que era há vinte anos. O argumento de que o presidencialismo gera instabilidade é mais difícil de suportar em uma região que tem sido muito mais consistente democrático do que no passado. A questão da performance e qualidade da governança é mais difícil de avaliar, mas até mesmo os sistemas presidencialistas multipartidários como o Brasil parecem ter melhor qualidade de governança. Pelo menos ao longo do tempo e, em seguida, pode ser que o presidencialismo latino-americano esteja amadurecendo.Como Ackerman sugere, muito deste debate pode ser melhor considerado, em termos concretos, no contexto de um sistema partidário em particular e especial conjunto de problemas políticos e sociais. A experiência egípcia parece validar o argumento anti-presidencial para uma extensão. Alguns dos principais problemas resultam da composição do Parlamento, em vez da presidência. A primeira Assembleia Constituinte, que era visto como empilhada por elementos islâmicos, foi construída por um Parlamento que não foi suficientemente plural, talvez por causa do tempo rápido das eleições. Mas a questão da emergência presidencial era saliente, por exemplo, no decreto de Morsi de novembro do ano passado afirmando que suas declarações não estariam sujeitas à revisão judicial. O presidencialismo não parece ter sido a única razão para a instabilidade do Egito, mas parece provável que tenha desempenhado algum papel.Se o Egito mantiver a presidência, ele deve considerar cuidadosamente a questão do poder presidencial, decretos e poderes de emergência. A experiência em grande parte da América Latina sugere que decretos de emergência podem, ocasionalmente, ser desestabilizadores, já que muitas vezes carecem de legitimidade popular, e podem limitar o desenvolvimento de outras instituições democráticas como legislaturas. A questão dos poderes presidenciais de emergência - e poderes de emergência em geral - é provável que surja repetidamente devido à natureza instável da transição democrática. A distribuição de poder entre o presidente e o primeiro-ministro é uma segunda dimensão importante a médio e longo prazo. O problema de coabitação parece ser endêmico para sistemas semi-presidenciais, e em algum momento os egípcios terão de enfrentá-lo. A questão mais ampla é que algumas dessas questões podem ser melhor tratadas através de pontos específicos, detalhados do projeto, ao invés de uma grande questão do tipo de regime.

Fonte - Blog do Jornal Internacional de Direito Constitucional

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